
Boa noite, boa tarde, bom dia ou boa sorte, dependendo da hora e do estado de espírito com que estiverem a ler isto. Queria partilhar convosco aquilo que ninguém tem coragem de confessar: a vida na escola tem tanto de comédia como de filme de terror.
Obrigada e boa noite.
Ser professor é um bocado como participar no Big Brother: estamos fechados, rodeados por olhos que topam tudo o que fazemos, sujeitos a provas diárias e sempre à beira de ser expulsos da sala. O prémio não são 100 mil euros. O prémio é agosto. E agosto, meus queridos colegas, sabem tão bem como eu, é o único mês em que voltamos a ser pessoas.
Mas até lá… até lá é preciso sobreviver. E sobreviver, na escola, é uma arte. É rir, chorar, engolir cafés como se fossem shots, levantar sobrancelhas como forma de linguagem corporal e decorar nomes que parecem feitiços de Harry Potter.

O espetáculo do horário
Todos os anos há aquele momento solene, quase cerimonial: receber o horário. O coração acelera, penso que pode ser desta que a sorte se lembra de mim e vou ter um horário humano, com entradas às 10h, saídas ao almoço e, quem sabe, sexta-feira livre. Abro o ficheiro e o sonho morre. Está ali um Picasso em versão tortura: dias a começar às 8h00, buracos de três horas a meio, aulas à tarde até às 18h30. E a sexta-feira… nunca falha! Aulas extra NOTURNAS das 18h45 às 22h! In(docente)!
E depois chega a pergunta: Então, gosta do horário? E eu, a tentar não parecer mal-educada, ponho o sorriso número 33 e digo: Ahhh, está… exótico, está… equilibrado, de uma forma… criativa. Quando o que queria mesmo dizer era: MAS QUE RAIO DE DESASTRE É ESTE?!

As fotos dos alunos
A segunda maravilha: as fotos dos alunos. Ai, as fotografias! Nunca correspondem à realidade. Alunos com 16 anos, bem alimentados, que entram na sala com cara de quem já paga IMI, mas na foto aparecem com três anos, cabelo aos caracóis e chucha na boca. Olho para aquilo e penso: está aqui a prova de que o tempo é relativo. Acabou de largar a fralda e já pensa que manda na fila do bar.
Depois há os ninjas que nunca entregam foto. Não há registo visual. E, claro, são sempre eles que aparecem com nomes impossíveis. Não é João, não é Maria. É Astromárcia Fangarifau dos Anjos. É Plenilúnia Octaviana Tupinambá. É Kleiton Djavanílson Arquiscoskas. Eu, na chamada, a suar em bica: “Astromárcia Fanga… Fanga… bom, tu sabes que és tu…” E eles riem. Deixar-me passar vergonha é muito mais divertido e seria também o que eu faria, se fosse aluna.
Acabo por memorizá-los por camisolas. Este é a camisola vermelha, aquela é a mochila das tachas… até ao dia em que aparecem com a roupa trocada e eu já não sei quem é quem.

Os processos
Lá vamos nós, arrastados até à sala sem janelas, forrada a dossiers dos pés à cabeça. Nem um raiozinho de sol. O bunker secreto do Ministério. Sento-me na penumbra, a encarar a pilha de processos da minha direção de turma, como se fossem cartas de tarot.
Ponho os óculos, para dar um ar solene, e, um a um, abro e leio. Há sempre uma secção de ficção mágica: a página onde se pergunta pela escolaridade do encarregado de educação. A encarregada é a mãe. Escolaridade: 4.º ano. Até aqui, tranquilo. Mais abaixo, nas habilitações da mãe aparece “Mestrado”. Como é que se passa do 4.º ano para um mestrado? Mistéeeeeerio…
Mas a cereja no topo é quando chega à minha mesa o processo do Rafael Márcio. Porque não é um. Não são dois. São três dossiers! Cada um numa cor diferente, organizados por pantones, como se fosse catálogo do IKEA. Azul clarinho, Volume I: A infância rebelde. Azul médio, Volume II: Adolescência furacão. Preto, Volume III: O Apocalipse Final. Eu abro o primeiro e digo para mim: calma, controla a respiração. No segundo, já sinto as mãos a suar. No terceiro quase espero que de dentro salte o Rafael Márcio e me dê com uma vianinha mista.

O drama de agosto ainda tão longe
No meio disto tudo há este pensamento constante: ainda falta uma vida até agosto. Agosto é o mês sagrado. É sol, praia, bolas de Berlim e o silêncio dos emails que não chegam. É quando somos humanos e anónimos. É maravilhoso. Pelo menos até nos aparecer à frente algum Camilo Joaquim muito espantado porque, afinal, parece que há vida para os professores fora da escola.
Mas enquanto isso não chega, é preciso treinar a fé. Porque primeiro temos de sobreviver ao Natal. E o Natal, para nós professores, não é bacalhau e rabanadas. É checkpoint. Dezembro é a medalha de sobrevivência: se chegaste até aqui sem cair para o lado, parabéns, passaste ao nível seguinte.
Até agosto, ainda é preciso viver mais conselhos de turma, relatórios, grelhas e telefonemas de pais que juram que em casa o filho é uma joia de moço. O Natal é a primeira prova superada, agosto é a vitória épica.

Conclusão
No fundo, ser professor é um curso avançado de resistência, com doses diárias de improviso e café infinito. Sobrevivemos a horários incompreensíveis, fotos que desafiam a ciência e processos que mais parecem novelas. Mas a verdade é que, apesar de tudo, continuamos aqui, talvez só por causa do agosto. Ou porque ainda não inventaram um botão de “pausa” para a vida escolar. Seja como for, estamos feitos para isto: heróis anónimos que sabem que, no final do dia, a melhor aula é aquela em que conseguimos rir de tudo isto antes de desligar o cérebro e acender o modo férias imaginárias.



Muito bom texto.
Parabéns!
Continuamos na luta. 💪💥
Estamos na luta, FORTES! ❤️ ❤️ ❤️
Adorei!!
Exatamente isto🤣🤣🤣
Mesmo isso! Este ano consegui safar-me dos processos, mas “levo” com quarto turmas de profissional em cima! Bora lá!
Agosto demora infinitos a chegar! Vamos reivindicar um mês pelo caminho?!