
O chão é lava (versão docente)
Era para brilhar. Brilhar, sim. Mas o chão do pátio da escola tinha outros planos: crateras por todo o lado.
Os sapatinhos de princesa não sabiam se deviam dançar, sapatear ou fazer o pino para não cair. Era uma espécie de “O Chão é Lava”, versão docente. (Nivel hardcore, 1, 2, 3 já! não salva ninguém! CAVALINHO BRANCO ATÉ À MORTE!)
O ministro de outra dimensão
Depois de tanta azáfama e expectativa, entrou em cena o ministro.
“Não há falta de professores no ensino.”
Alto como uma torre medieval, parecia imune ao chão esburacado e às falhas ainda maiores do sistema. Nesse instante, abriu-se a dimensão paralela.
Na minha turma faltam, nas dos colegas também. Olhei à volta: ginásio com cadeiras cuidadosamente alinhadas, mas muitas vazias. Talvez os professores em falta estivessem lá, invisíveis, um fenómeno paranormal docente.
O ministro insistia: “Não há falta de professores no ensino.” Eu só ouvia o silêncio das cadeiras vazias, esse era mais alto do que o próprio discurso.
Se fosse um concurso, estava ganho: ouro em Cadeiras Vazias 2025, ex aequo com Ignorar o Óbvio, ano letivo 25/26.
A promessa do “ano letivo tranquilo”
- O ministro acredita.
- As vivências de quem conhece o dia a dia na escola dizem que não.
Cada ano parece um comboio desgovernado: falta de professores, tempo de serviço congelado tipo mamute, grelhas e papelada suficientes para erguer mais três Muralhas da China.
Tranquilo? Talvez para quem vive em gabinetes onde o ruído das escolas não chega.
Alunos, pais e a magia da sobrevivência
Os alunos vão passando de ano com mais milagres do que os de Fátima. Passam sem saber grande coisa e com poucas ou nenhumas consequências.
Os pais são agora advogados de defesa. Protegem os filhos como se não soubessem quem vive com eles em casa, “o meu Joel Jaime é um jóia de moço “alimentando a ideia de que a vida tem sempre paragens “à vontade do freguês”.

Polícia dos telemóveis
A cereja no bolo: a proibição de telemóveis nas escolas.
Excelente ideia. Mas quem vai policiar isso?
Na lista de funções já se acumulam: mãe, confidente, árbitra, professora, enfermeira e psicóloga. Agora também polícia de telemóveis?
Já me imagino de megafone no recreio:

Cartas para o ministro
Não consegui falar com o ministro, mas a comunicação telepática funcionou. Seguiu em pacote especial: sarcasmo, verdades duras e uma pitada daquela esperança irritante, a que nos faz levantar todos os dias.
O lugar dele também não é fácil: jogar Tetris em modo impossível, com peças tortas que caem a dobrar; herdar erros antigos, apagar fogos com baldes furados e ainda sorrir para a fotografia.
A esperança que nos mantém de pé
Ainda assim, gostava de vê-lo mudar alguma coisa de verdade. Se acontecer, serei a primeira a aplaudir sem ironia. Que comece pela nova carreira docente que todos aguardamos.
Até lá, sigo a tropeçar nos buracos do chão da escola, com os sapatinhos cheios de pó (de princesa não são). E a única carreira que me passa pela frente não é a docente: é a carreira do 50 a caminho de Algés. Infelizmente, não é a que se anseia agora.


