Falta de professores: crónica da visita do ministro e do “ano letivo tranquilo”

Professora chega à escola para se apresentar e foge porque se relembra que ja nao quer voltar, falta de professores
Naquela manhã, a escola parecia preparar-se para um evento de gala. Uma semana inteira de suspense: algo grande ia acontecer. Só no fim se soube que o senhor ministro vinha agraciar-nos com a sua mui nobre presença.As professoras, quais estrelas de Hollywood, correram ao cabeleireiro para fazer balayages, brushings e madeixas dignas de capa de revista.Quem não soubesse diria que iam desfilar no tapete vermelho de Cannes. Mas o “tapete” era, na verdade, um linóleo gasto dos anos 80.Enfiaram-se nos vestidos domingueiros mais chiques; algumas até desencantaram o vestido da primeira comunhão, aquele tesouro escondido que só sai do armário com a bênção do padre.

O chão é lava (versão docente)

Era para brilhar. Brilhar, sim. Mas o chão do pátio da escola tinha outros planos: crateras por todo o lado.

Os sapatinhos de princesa não sabiam se deviam dançar, sapatear ou fazer o pino para não cair. Era uma espécie de “O Chão é Lava”, versão docente. (Nivel hardcore, 1, 2, 3 já! não salva ninguém! CAVALINHO BRANCO ATÉ À MORTE!)

O ministro de outra dimensão

Depois de tanta azáfama e expectativa, entrou em cena o ministro.

“Não há falta de professores no ensino.”

Alto como uma torre medieval, parecia imune ao chão esburacado e às falhas ainda maiores do sistema. Nesse instante, abriu-se a dimensão paralela.

Na minha turma faltam, nas dos colegas também. Olhei à volta: ginásio com cadeiras cuidadosamente alinhadas, mas muitas vazias. Talvez os professores em falta estivessem lá, invisíveis, um fenómeno paranormal docente.

O ministro insistia: “Não há falta de professores no ensino.” Eu só ouvia o silêncio das cadeiras vazias, esse era mais alto do que o próprio discurso.

Se fosse um concurso, estava ganho: ouro em Cadeiras Vazias 2025, ex aequo com Ignorar o Óbvio, ano letivo 25/26.

A promessa do “ano letivo tranquilo”

  • O ministro acredita.
  • As vivências de quem conhece o dia a dia na escola dizem que não.

Cada ano parece um comboio desgovernado: falta de professores, tempo de serviço congelado tipo mamute, grelhas e papelada suficientes para erguer mais três Muralhas da China.

Tranquilo? Talvez para quem vive em gabinetes onde o ruído das escolas não chega.

Alunos, pais e a magia da sobrevivência

Os alunos vão passando de ano com mais milagres do que os de Fátima. Passam sem saber grande coisa e com poucas ou nenhumas consequências.

Os pais são agora advogados de defesa. Protegem os filhos como se não soubessem quem vive com eles em casa, “o meu Joel Jaime é um jóia de moço “alimentando a ideia de que a vida tem sempre paragens “à vontade do freguês”.

Mae diz que filho é uma joia de moço e txitxa concorda dizendo que só lhe apetece enterrá-lo

Polícia dos telemóveis

A cereja no bolo: a proibição de telemóveis nas escolas.

Excelente ideia. Mas quem vai policiar isso?

Na lista de funções já se acumulam: mãe, confidente, árbitra, professora, enfermeira e psicóloga. Agora também polícia de telemóveis?

Já me imagino de megafone no recreio:

Txitxa policia o uso do telemóvel

Cartas para o ministro

Não consegui falar com o ministro, mas a comunicação telepática funcionou. Seguiu em pacote especial: sarcasmo, verdades duras e uma pitada daquela esperança irritante, a que nos faz levantar todos os dias.

O lugar dele também não é fácil: jogar Tetris em modo impossível, com peças tortas que caem a dobrar; herdar erros antigos, apagar fogos com baldes furados e ainda sorrir para a fotografia.

A esperança que nos mantém de pé

Ainda assim, gostava de vê-lo mudar alguma coisa de verdade. Se acontecer, serei a primeira a aplaudir sem ironia. Que comece pela nova carreira docente que todos aguardamos.

Até lá, sigo a tropeçar nos buracos do chão da escola, com os sapatinhos cheios de pó (de princesa não são). E a única carreira que me passa pela frente não é a docente: é a carreira do 50 a caminho de Algés. Infelizmente, não é a que se anseia agora.

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