As Desculpas Criativas dos Alunos
Há uma espécie curiosa que habita as salas de aula, conhecida por todos os professores. Chamo-lhes Nostradamus do Apocalipse. São os mestres dos cenários impossíveis, do “não lembra a ninguém”, e do sabe-deus-por-que-raio-esta-cabeça-decidiu-inventar-uma-tanga-mais-improvável-que-as-promessas-do-nosso-querido-ministro-da-Educação.
No vasto e fértil universo das desculpas criativas, estes alunos são verdadeiros artistas, e qualquer professor já se riu (ou desesperou) com pelo menos uma delas.
Estes alunos têm um talento único para imaginar as piores catástrofes que os poderiam impedir de fazer qualquer trabalho, em casa ou na escola. Estas desculpas não são simples atos de procrastinação. São obras de ficção de nível avançado, dignas de Óscar, de se tornarem um Clássico e de serem faladas por muitos e muitos anos (na sala dos professores, pelo menos).
Exemplos clássicos
“Stôra, e se eu fosse atropelado a caminho de casa e não conseguisse fazer os TPC?”
Se fosses atropelado, o TPC ia ser a tua última preocupação, Acácio Jaime…
“E se a vaca da minha avó (pobre vaca!) comesse o meu livro de Matemática?”
Ora bem, se a vaca ficasse com o manual, começavas a estudar a tabuada com ela!
“E se o planeta fosse atingido por um cometa precisamente quando a aula de Ciências estivesse a começar, não valia a pena ter estudado, pois não?”
Calma, Nostradamus do Apocalipse!
A arte da desculpa criativa
A criatividade desaparece para nunca mais ser vista quando chega a vez de conjugar um verbo ou resolver uma equação, mas dispara na criação de desculpas criativas improváveis. Quando chega o momento de inventar, a lista é do melhor que há:
“E se eu cair ao tentar escrever no quadro?”
Então a queda conta para Educação Física! Se for um mortal encarpado, tens 5!
“E se, ao abrir o caderno, rasgar a folha e tiver de começar tudo outra vez?”
À velocidade que acontecem coisas aos teus materiais, se calhar íamos ver de um seguro para esse caderno…
“E se a minha mão se cansar de tanto copiar?”
Descansas um bocadinho e continuas, Arlete Cláudia! Garanto que o braço não cai!
“E se eu desmaiar só de pensar no TPC?”
Um pouco rebuscado, mas já tenho aqui água e boas mãos para umas chapadotas de despertar (só por precaução, claro!).
Outras espécies da fauna escolar
Neste habitat também encontramos outras subespécies, como os “Posso não?”, que repetem incansavelmente:
“Posso não fazer?”
Claro, que podes não fazer, Márcio Fábio! … E eu posso não te dar positiva.
“Posso não copiar?”
Podes não copiar, mas também podes sair com falta por não estares aqui a fazer nada, não é Álvaro Sérgio?
“Posso não estar a ouvir?”
Podes não ouvir, claro! Mas que foi falado, foi, Argentina Laura!
Os Visionários Futuristas do fim escolar
Outros são os Visionários Futuristas, que imaginam o apocalipse educativo como se fosse iminente:
“E se um dia já não existirem professores?”
Então cada aluno terá de ensinar-se a si próprio! Começa já a fazer as tuas planificações, Judite Leonor!
“E se o chato gépêtê começasse a dar aulas em vez de você?”
Quem me dera! Seriam aulas 24/7, sem intervalo para lanche. Ias a-do-rar, Adelaide Mónica!!
“E se num futuro ninguém souber escrever à mão?”
Desenhas! Mas antes disso, que tal treinares o ‘e se eu estudasse para o teste em vez de inventar calamidades?’
Criatividade: dom ou desculpa?
No final de contas, estes Nostradamus do Apocalipse são uns preguiçosos de primeira, mas são tão bons a inventar desculpas criativas que tenho que disfarçar o meu riso para não lhes estragar o espetáculo. Porque, sejamos honestos, se me apanharem a rir, perco toda a autoridade e fico apenas com a diversão, que é, sem dúvida, a melhor parte deste teatro escolar.
É nestes momentos que a verdadeira vida de professor se revela: entre a paciência, o cansaço e o riso inevitável. Tenho que repetir a mim própria, para não me esquecer e não passar para o lado parvo da força, que a professora ali sou eu!

Se gostaste deste retrato apocalíptico da vida escolar, espreita o artigo Banda desenhada: tiras da Txitxa que mostram como rir é resistir (mesmo na escola). O caos é o mesmo, só muda o formato.
Para mais sais desabafos, cartoons e tragédias docentes, espreita o blog da Txitxa!




Fantástico, como sempre 🥰