“Pode ser pares de 4?” ou Coisas que só um professor entende

Esperar para começar a aula

Ser professor é concorrer para o Guinness da paciência. Porque o comité do Guinness ainda não viu o intervalo do 7.º C. Entrar na sala parece a corrida para as primeiras filas de um concerto, mas com carteiras tortas, gargalhadas e estojos que fazem barulho de maracas dignos de banda desenhada sobre professores.

No meio do ruído, há sempre um caderno que se abre, um raciocínio que acende e um silêncio que, de repente, quer dizer “estamos com atenção”.

As perguntas filosóficas aparecem logo: “Alguém viu os meus óculos?” “Estão na tua cara, Júlio Álvaro.”

As cenas de cinema também. “Prof, falta muito para acabar a aula?” “Acabámos de entrar, Márcia Rita.” A caneta que evapora na hora do teste. O telemóvel que jura estar em modo avião, mas descola a meio da explicação. O riso que nasce num canto e conquista a turma toda sem pedir licença — um clássico de humor de professores.

O clássico “Prof, posso ir beber água rápido?” começa sprint, vira romaria ao bar e regressa em desfile triunfal vinte minutos depois, com a escola inteira desenhada nos ténis dignos de uma banda desenhada escolar.

Pelo caminho, há quem jure que precisa de devolver um livro à biblioteca, outro lembra que deixou a garrafa no balneário, e aparece sempre um repórter do corredor com um update do que se passa no bar. No quadro, a frase ficou a meio. Recomeça-se com nova plateia.

Aluno questiona se pode ir à casa de banho e quando vai percorre a escola toda

A arte infinita de ensinar é dar quarenta e cinco versões da mesma explicação para a mesma dúvida. “Eu só tinha o braço no ar para perguntar se podia afiar o lápis.”

Dança-se outra vez entre o essencial e o acessório. Trocam-se palavras difíceis por histórias simples que abrem curiosidade. Os ensinamentos pegam melhor com exemplos pescados do intervalo. Quando a coisa entra, sabe a vitória.

O duelo de olhares quando vamos escolher a quem perguntar. Uma turma a estudar o teto e o chão. Os virtuosos que fazem os dois ao mesmo tempo.

Quando a pergunta está no ar, todos ficam especialistas no padrão cinza cor de burro quando foge da mesa. O silêncio gosta de suspense. Quando sai o nome, nasce epopeia. “Era isso que eu ia dizer, txitxa.” “Quase, Jonas Júlio. Só que o que disseste foi outra coisa.”

A campeã dos sustos é a pergunta pessoal: “Prof, posso fazer uma pergunta pessoal?” Não é pessoal. É gestão de tempo criativa.

Vem aí a história do primo do amigo do vizinho que faltou ao teste de 2014 por causa do cão do tio. Mesmo assim, há graça nestes atalhos. São tentativas de conversa, toques no ombro, maneiras tortas de dizer que estão ali.

Txitxa demonstra que ser professor é ser muitas coisas

Superpoderes de professor

  • Ator de improviso. Transformar uma garrafa de plástico num rio, um candeeiro em sol tímido e a sala num laboratório de ideias.
  • Enciclopédia ambulante. Responder de psicologia a dinossauros com sentimentos, mitos e memes, música e séries.
  • Psicólogo e árbitro. Gerir birras, apitar faltas de respeito, mostrar amarelo com humor de professores antes de ficar vermelho.
  • Técnico de som. Domar projetores temperamentais, cabos teimosos e colunas que ora falam em eco, ora ficam mudas.

Desafios do dia a dia

  • Desculpas de coleção. “O TPC ficou no autocarro.” “O cão não comeu, mas babou.” “O meu primo levou o caderno por engano e deixou na explicação.” E os trabalhos perdidos? Esses adoram passear até depois do prazo.
  • Mochilas modo Evereste. Cinco estojos, três lancheiras e o labubu da sorte para os testes. Entre cadernos, cromos, recadinhos dobrados e um segredo sobre a Cátia Jéssica do 5.º C no intervalo.

Aluna dá palavras de coragem à txitxa

Pequenas grandes recompensas

Os olhos a brilhar quando o difícil encaixa. Um obrigado baixinho que vale por um aplauso. Um desenho com um coração e a legenda “Menhor praçora do mundo”. O erro fica e o carinho acerta no alvo. Às vezes, anos depois, aparece um “aquele empurrão deu jeito”. Sementes lançadas na sala de aula que, um dia qualquer, decidem aparecer.

Plantam-se curiosidade, empatia e pensamento crítico. Umas nascem logo, outras chegam quando querem. Enquanto isso, rega-se com perguntas melhores, escuta atenta e tarefas onde o erro é caminho e não travão. Ensinar também é arrumar certezas, trocar mapas por bússolas e perceber que cada turma fala à sua maneira.

Ser professor é viver entre o caos e a magia. Rir para não chorar. Ensinar para não esquecer. Construir algo que nos ultrapassa. O plano A torna-se em plano B antes do intervalo, mas muitas vezes o que resulta é o plano C.

No fundo, ser professor é ser sempre aprendiz. Da vida, dos outros, de nós mesmos. Treinar o ouvido para o que não é dito. Afinar o olhar para ver o potencial antes de ele aparecer.

No final do dia, a luz apaga-se, o quadro guarda pó de ideias e fica a certeza. Amanhã recomeça. E recomeçar é o nosso truque preferido.

lápis separador txitxa

Se gostas deste olhar realista (e um bocadinho doido) sobre o ensino, lê também o artigo Banda desenhada: 5 tiras da Txitxa que mostram como rir é resistir (mesmo na escola).

1 thought on ““Pode ser pares de 4?” ou Coisas que só um professor entende”

  1. Professores, verdadeiros anjos enviados por Deus, que iluminam o caminho das crianças e jovens, guiando-os com sabedoria e paciência na jornada do conhecimento, inspirando-os a descobrir seus talentos e a construir um futuro brilhante.  A dedicação dos professores transforma vidas, molda o caráter e incentiva a busca incessante pelo conhecimento. Também cultiva valores essenciais para o desenvolvimento integral de cada aluno. A vossa influência positiva transcende os muros da escola, impactando gerações e construindo um mundo melhor.

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