Banda desenhada portuguesa: entrevista imaginária com a Txitxa

Banda desenhada portuguesa professora a enumerar o que também é ser professor com humor

ENTREVISTADOR: Olá, Txitxa. Vamos diretos ao assunto: quem és tu, afinal?TXITXA: Sou professora, claro. Daquelas que já sobreviveu a conselhos de turma com e sem bolos, reuniões de pais com duas pessoas e apresentações em PowerPoint de 75 slides em comic sans, com transições em espiral. Transformo esse trauma em banda desenhada portuguesa cheia de humor, porque sai mais barato do que terapia e, na verdade, também é uma forma muito eficaz de desabafar sem perder o emprego.

ENTREVISTADOR: E porque começaste a desenhar?

TXITXA: Porque, se não desenhasse, provavelmente gritava mais alto do que o permitido numa sala de professores. Esses ambientes podem ser bastante difíceis. A banda desenhada foi uma forma de dizer “isto é surreal” sem precisar usar palavras. É uma linguagem universal, que comunica o que sentimos, muitas vezes com um toque de humor muito próprio, que consegue aliviar o peso do dia a dia na escola. Além disso, é uma forma de criar empatia e compreensão entre quem passa pelo mesmo, que é uma das coisas que mais admiro nos artistas de banda desenhada portuguesa: conseguem transformar o quotidiano em arte.

ENTREVISTADOR: O que é que os teus desenhos têm que outros não têm?

TXITXA: Os meus desenhos têm olheiras, sarcasmo e uma revolta contida, mas muito amor pelo ensino. São feitos por alguém que já teve de usar a própria impressora porque a da escola estava à espera de toner há três meses, por exemplo. Isso é um detalhe que diz muito sobre o universo em que trabalhamos. As minhas histórias misturam frustração e paixão — um equilíbrio difícil de manter, mas que faz toda a diferença. Tento mostrar o lado realista, às vezes complicado, mas sempre com um sentido de humor de professor que só quem vive o dia a dia escolar reconhece.

ENTREVISTADOR: Quem é que mais se revê no teu trabalho?

TXITXA: Professores, claro, são o meu público principal. Mas também pais que veem o desafio de educar com outros olhos, alunos que percebem aquelas situações absurdas que só quem está dentro conhece, assistentes operacionais que fazem tudo funcionar nos bastidores. Acredito que o meu trabalho fala para um público muito variado porque, embora seja sobre o mundo escolar, toca em questões humanas universais: paciência, resistência, frustração e, acima de tudo, esperança. Toda a gente se identifica de alguma forma com as tiras de banda desenhada portuguesas que faço, porque há nelas um pedaço de todos nós.

ENTREVISTADOR: Porque é que se chama Txitxa?

TXITXA: O nome é uma homenagem à honestidade e espontaneidade dos meus alunos. Um dia, um deles tentou dizer teacher e disse txitxa. Achei tão genuíno, tão verdadeiro, que decidi adoptar esse nome. Tem mais verdade do que muitos planos de recuperação que existem por aí. É um lembrete constante de onde vem a minha inspiração e da autenticidade do que faço.

ENTREVISTADOR: Qual é o objetivo da marca Txitxa?

TXITXA: O objetivo é rir, resistir e mostrar que, apesar de tudo, existe dignidade em ensinar, mesmo que o país pareça querer esquecer disso. O humor é um escudo e uma ferramenta de sobrevivência. E, ao mesmo tempo, vender uns sacos e livros, que servem para pagar os cafés e terapia, que também são essenciais. O que faço é mais do que um trabalho: é tentar mostrar a realidade, criar comunidade e dar voz às pequenas batalhas e vitórias do dia a dia escolar.

ENTREVISTADOR: Como defines a tua estética?

TXITXA: São rabiscos com personalidade. Linhas tortas e ideias afiadas. É bonito, mas não é simples ou fofinho. Aqui o sarcasmo vem primeiro, o design vem depois — mas aparece sempre. A estética tem que transmitir essa sensação de imperfeição charmosa, aquela desordem que é tão real como os dias nas escolas. Quero que cada desenho tenha vida e autenticidade, tornando temas sérios acessíveis e até divertidos sem perder profundidade.

ENTREVISTADOR: Tens algum episódio marcante da tua experiência enquanto professora que usaste para criar algum desenho?

TXITXA: Sim, tantos. Muitas vezes aproveito momentos em que as contradições do sistema se tornam gritantes, como quando tentei organizar um evento escolar e percebi que a burocracia tornava tudo impossível. Ou quando fiquei várias horas a ajudar um aluno que precisava de apoio extra e senti que ninguém mais estava disponível para o fazer. Essas situações alimentam o meu trabalho e dão-lhe vida.

ENTREVISTADOR: Como é que és recebida por colegas e alunos quando mostras os teus desenhos?

TXITXA: Muito bem. Acho que todos sentimos que é importante falar sobre os problemas reais que enfrentamos. Os alunos geralmente adoram, porque reconhecem as situações em que os retrato e isso cria uma ligação. No fundo, é uma maneira de criar comunidade e conversar de forma leve sobre temas que podem ser pesados.

ENTREVISTADOR: Alguma vez sentiste que o teu trabalho artístico podia prejudicar a tua carreira de professora?

TXITXA: Já tive receios no início, claro. Mostrar uma visão mais crua e sarcástica da escola pode não ser bem recebido por toda a gente, até por medo de represálias. Mas com o tempo percebi que o que faço tem valor e que a honestidade artística é uma forma de resistência. É importante manter o equilíbrio, mas também seguir a autenticidade.

ENTREVISTADOR: Por fim, tens alguma mensagem para quem acabou de chegar ao teu mundo?

TXITXA: Bem-vindo ao país das metas impossíveis. Aqui, rir é um mecanismo de defesa e o lápis é uma arma de protesto. Usa ambos. O sistema tem muitos desafios, mas está cheio de histórias humanas incríveis e momentos que valem a pena serem contados. Se gostares, partilha com aquele colega que já não tem esperança nos olhos, porque juntos somos mais fortes — e o riso nunca é demais para enfrentar o que vier.

Esta é a essência do que faço: dar voz ao invisível, transformar o caos em arte e manter viva a chama da educação com humor, resistência e muito amor. Acredito que a escola pode ser um lugar melhor e talvez as minhas tiras de banda desenhada portuguesa ajudem a lembrar isso a todos nós.

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