
ENTREVISTADOR: E porque começaste a desenhar?
TXITXA: Porque, se não desenhasse, provavelmente gritava mais alto do que o permitido numa sala de professores. Esses ambientes podem ser bastante difíceis. A banda desenhada foi uma forma de dizer “isto é surreal” sem precisar usar palavras. É uma linguagem universal, que comunica o que sentimos, muitas vezes com um toque de humor muito próprio, que consegue aliviar o peso do dia a dia na escola. Além disso, é uma forma de criar empatia e compreensão entre quem passa pelo mesmo, que é uma das coisas que mais admiro nos artistas de banda desenhada portuguesa: conseguem transformar o quotidiano em arte.
ENTREVISTADOR: O que é que os teus desenhos têm que outros não têm?
TXITXA: Os meus desenhos têm olheiras, sarcasmo e uma revolta contida, mas muito amor pelo ensino. São feitos por alguém que já teve de usar a própria impressora porque a da escola estava à espera de toner há três meses, por exemplo. Isso é um detalhe que diz muito sobre o universo em que trabalhamos. As minhas histórias misturam frustração e paixão — um equilíbrio difícil de manter, mas que faz toda a diferença. Tento mostrar o lado realista, às vezes complicado, mas sempre com um sentido de humor de professor que só quem vive o dia a dia escolar reconhece.
ENTREVISTADOR: Quem é que mais se revê no teu trabalho?
TXITXA: Professores, claro, são o meu público principal. Mas também pais que veem o desafio de educar com outros olhos, alunos que percebem aquelas situações absurdas que só quem está dentro conhece, assistentes operacionais que fazem tudo funcionar nos bastidores. Acredito que o meu trabalho fala para um público muito variado porque, embora seja sobre o mundo escolar, toca em questões humanas universais: paciência, resistência, frustração e, acima de tudo, esperança. Toda a gente se identifica de alguma forma com as tiras de banda desenhada portuguesas que faço, porque há nelas um pedaço de todos nós.
ENTREVISTADOR: Porque é que se chama Txitxa?
TXITXA: O nome é uma homenagem à honestidade e espontaneidade dos meus alunos. Um dia, um deles tentou dizer teacher e disse txitxa. Achei tão genuíno, tão verdadeiro, que decidi adoptar esse nome. Tem mais verdade do que muitos planos de recuperação que existem por aí. É um lembrete constante de onde vem a minha inspiração e da autenticidade do que faço.
ENTREVISTADOR: Qual é o objetivo da marca Txitxa?
TXITXA: O objetivo é rir, resistir e mostrar que, apesar de tudo, existe dignidade em ensinar, mesmo que o país pareça querer esquecer disso. O humor é um escudo e uma ferramenta de sobrevivência. E, ao mesmo tempo, vender uns sacos e livros, que servem para pagar os cafés e terapia, que também são essenciais. O que faço é mais do que um trabalho: é tentar mostrar a realidade, criar comunidade e dar voz às pequenas batalhas e vitórias do dia a dia escolar.
ENTREVISTADOR: Como defines a tua estética?
TXITXA: São rabiscos com personalidade. Linhas tortas e ideias afiadas. É bonito, mas não é simples ou fofinho. Aqui o sarcasmo vem primeiro, o design vem depois — mas aparece sempre. A estética tem que transmitir essa sensação de imperfeição charmosa, aquela desordem que é tão real como os dias nas escolas. Quero que cada desenho tenha vida e autenticidade, tornando temas sérios acessíveis e até divertidos sem perder profundidade.
ENTREVISTADOR: Tens algum episódio marcante da tua experiência enquanto professora que usaste para criar algum desenho?
TXITXA: Sim, tantos. Muitas vezes aproveito momentos em que as contradições do sistema se tornam gritantes, como quando tentei organizar um evento escolar e percebi que a burocracia tornava tudo impossível. Ou quando fiquei várias horas a ajudar um aluno que precisava de apoio extra e senti que ninguém mais estava disponível para o fazer. Essas situações alimentam o meu trabalho e dão-lhe vida.
ENTREVISTADOR: Como é que és recebida por colegas e alunos quando mostras os teus desenhos?
TXITXA: Muito bem. Acho que todos sentimos que é importante falar sobre os problemas reais que enfrentamos. Os alunos geralmente adoram, porque reconhecem as situações em que os retrato e isso cria uma ligação. No fundo, é uma maneira de criar comunidade e conversar de forma leve sobre temas que podem ser pesados.
ENTREVISTADOR: Alguma vez sentiste que o teu trabalho artístico podia prejudicar a tua carreira de professora?
TXITXA: Já tive receios no início, claro. Mostrar uma visão mais crua e sarcástica da escola pode não ser bem recebido por toda a gente, até por medo de represálias. Mas com o tempo percebi que o que faço tem valor e que a honestidade artística é uma forma de resistência. É importante manter o equilíbrio, mas também seguir a autenticidade.
ENTREVISTADOR: Por fim, tens alguma mensagem para quem acabou de chegar ao teu mundo?
TXITXA: Bem-vindo ao país das metas impossíveis. Aqui, rir é um mecanismo de defesa e o lápis é uma arma de protesto. Usa ambos. O sistema tem muitos desafios, mas está cheio de histórias humanas incríveis e momentos que valem a pena serem contados. Se gostares, partilha com aquele colega que já não tem esperança nos olhos, porque juntos somos mais fortes — e o riso nunca é demais para enfrentar o que vier.
Esta é a essência do que faço: dar voz ao invisível, transformar o caos em arte e manter viva a chama da educação com humor, resistência e muito amor. Acredito que a escola pode ser um lugar melhor e talvez as minhas tiras de banda desenhada portuguesa ajudem a lembrar isso a todos nós.
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